Bruno Lobo – 276 km de Upwind até Atins

TRAVESSIA SÃO LUÍS – ATINS

Já pensava há uns 2 anos fazer essa aventura, mas diante da correria do dia a dia e competições não encontrava uma data adequada para fazer antes, surgiu a oportunidade, então, de fazer nesse fim de semana e alguns amigos estariam em Atins e poderia voltar com eles para São Luís. Fiz esse trecho no ano passado com Andre Penna, um cara que admiro e com certeza me inspirou para esse desafio, porém fizemos de downwind e em dois dias, dessa vez faria contra o vento e apenas um dia, sabia que não seria fácil e confesso que estava receoso de não conseguir, pois não sabia como meu corpo iria reagir diante de tantas horas de velejo em condições extremas.

A preparação foi feita ao longo da semana que antecedeu a travessia, não tive muito tempo para planejar, alguns amigos me ajudaram emprestando alguns materiais como o próprio kite, já que costumo usar kite foils e preferi fazer a travessia de kite tubular pela facilidade de pousar caso precisasse e de funcionar como auto-resgate, bolsa impermeável, gps, enfim, não seria possível sem eles. Levei uma Bolsa com biscoitos, pão, barras de cereal, 4 litros de água mais 2 litros no camelback, três facas, tesoura, já que há muitas redes no caminho, gps com rastreador, fui preparado para passar um dia no deserto dos lençóis, caso não chegasse a tempo.

Preparação para a longa travessia, com mantimentos para uma noite nos lençóis maranhenses.

Enfim chegou o grande dia e Saí de São Luís no sábado, dia 28/09/2019, às 09:30 da manhã, um pouco tarde devido ao rastreador ter dado problema e estava tentando solucionar se não iria desistir da travessia, no limite de tempo que tinha estipulado, isso me deixou com uma tensão a mais, já que sabia que não tinha margem para parar muito, tinha que ser certeiro e andar no ritmo que havia planejado, as condições estavam boas, vento de aproximadamente 20 knots e resolvi usar o kite ozone edge 9m v9 e minha prancha de competição. Durante esse percurso até Atins existem duas grande Baías de aproximadamente 20km, de São José de Ribamar e a Baía do Tubarão, dois trechos onde não se olha praticamente terra e você fica totalmente em alto mar com condições extremas de maré.

 

Antes de entrar na primeira Baía, por volta de 40 km de velejo senti que não seria fácil e me questionei se conseguiria, piorou pois logo após bati em um banco de areia no meio da mar, um trecho cheio de armadilhas, rede de pesca, espinhais e bancos de areia, e tive um avaria na minha caixa de quilha, o mastro entrou na prancha e os parafusos ficaram sobressaltados logo onde colocava o pé de trás para fazer força na orça. Pensei em voltar e desistir, mas sabia que não teria outra oportunidade de fazer essa aventura tão cedo e decidi continuar e atravessar a primeira Baía, o parafuso estava incomodando muito, mas fui me adaptando aquela dor e desconforto, com certeza o ritmo caiu um pouco devido esse problema. Meu plano era parar em Ilha de Santana, uma ilha que tem um grande farol e que fica entre as duas Baías. Mas devido ao tempo, já era aproximadamente 1 hora da tarde e 110km de velejo, resolvi continuar sem parar e enfrentar direto a temida Baía do Tubarão rumo aos Lençóis Maranhenses.

Não parava de pensar na chegada, queira chegar era o que passava na minha cabeça a todo tempo e foi quando refleti, essa travessia é como a vida:
– “às vezes pensamos tanto em algo que queremos, seja uma aprovação, uma viagem, um bem material, uma vitória, enfim, e esquecemos do processo, da trajetória, do dia a dia. Comecei a apreciar tudo em minha volta, as belezas do litoral, o quão frágil estava me sentindo no meio do mar, como uma gota d’água no oceano, com medo e sentido aquela dor no pé, assim é a vida, muitas vezes vamos ter tropeços, vamos sentir dor, mas temos que continuar, aproveitando cada dia, cada momento, porque o mais importante não é chegar, não é o resultado, mas todo o processo e trabalho duro diário, isso faz valer a pena e fez valer cada segundo da travessia e da vida.”

“No caminho além da solidão o desafio eram os bancos de areia.”

Voltando, foi um dos piores trechos em relação ao mar mexido, ao me aproximar da costa, na praia de Travosa, uma praia conhecida pelas ondas grandes, senti que estava num liquidificador, a prancha estava totalmente instável e pensei que havia até quebrado a asa, parei para verifcar e vi que realmente era devido a corrente daquela região que havia um encontro de rio com o mar, 20 km que pareceram uma eternidade. Me senti cansado, a lombar estava fadigada e resolvi parar para me hidratar e comer já que a água do camelback havia acabado, foi a única parada da travessia, coincidentemente avistei três pescadores e pude trocar uma ideia que me motivou e deu forças para seguir, primeiro porque eles falaram que dali em diante o litoral favoreceria um pouco mais a orça e segundo porque eles falaram que eu não chegaria a tempo, já era 14h e 15 min da tarde, isso me instigou ainda mais queria mostrar para eles mesmo sabendo que talvez não os viria novamente, pelo menos não tão cedo, parei aproximadamente 10-15 min e segui novamente.

Tentei manter a constância e tentar acelerar o ritmo, já havia velejado 155km e faltava em torno de 70km em linha reta, nos lençóis a proporção de orça estava de 1:3, 1 km entrava no mar e 3km progredia no litoral, não estava tão fácil quanto imaginava. O tempo foi passando, o sol baixando e não sabia onde estava, se faltava muito ou pouco, comecei a achar que não seria possível, estava velejando km após km na esperança de que por volta dos 230km – 250km chegasse, porém passou os 250km de velejo já era aproximadamente 5 horas ta tarde e não havia chegado, tive a sensação de bateria na trave e já estava pensando em uma maneira de dormir na praia.

O GPS mostra exatamente o trajeto do longo percurso SLZ – Atins

Foi quando olhei no horizonte algo que parecia um kite, a luz já estava baixa, o sol quase se pondo, quando me aproximei eram dois kites fazendo downwind pela beira, passei por eles e achava que já era atins, mas não encontrei a entrada para a cidade estava meio perdido e sem referência, voltei cerca de 5km até onde eles estavam e perguntei onde era a entrada da cidade e eles falara que era 8 km para cima, voltei a orça como nunca fiz muita força, já era 5:40 da tarde.

Foi quando novamente olhei outro kite, desse vez realmente em Atins e enfim sabia que estava chegando, era 5:55 da tarde. No limite, mais 10 minutos e estaria tudo escuro.

Chegada em Atins no limite do pôr do sol para coroar o feito !

Foi uma mistura de sensações, alegria e e gratidão a Deus e a vida por ter conseguido esse feito. Todo esforço havia valido a pena, a dor no pé, na lombar e antebraço, sede e fome valeram a pena, uma experiência de superação para a vida a toda, no final deu tudo certo. Mais tarde encontrei os amigos e pude comemorar essa grande aventura, 276km de velejo contra o vento em 8 horas e 26 minutos.

Agora é focar nas ultimas competições do ano e programar a grande travessia no ano que vem que mais para frente anunciarei esse desafio ainda maior.

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