Como evitar lesões no Kitesurf?

O GoKite entrevistou Bruno Lobo, ortopedista, campeão brasileiro, sul-americano e velejador de Kitefoil, ou seja, nada melhor que ouvir conselhos de um profissional que pratica o esporte e entende exatamente o que passamos ao velejar.

1 – Ser um praticante de kitesurf requer uma estrutura forte do corpo, afinal o esforço, impactos e lesões são comuns no kitesurf. Do ponto de vista físico, como que um praticante de kitesurf deve se preparar?

Bruno: O kitesurf é um esporte radical que trabalha todo o corpo, principalmente membros inferiores e musculatura paravertebral, porém a forma como você pratica é o determinante para a maioria das lesões, a modalidade freestyle que tem saltos e manobras é mais agressiva para articulações e apresenta maior risco de lesões. De forma geral, recomendo um bom alongamento antes de entrar na água e um trabalho de fortalecimento complementar de core e membros inferiores que irão prevenir grande parte das lesões.

2 – Quais as lesões mais comuns para quem pratica kitesurf?
Bruno: Não há nenhum estudo com uma evidência científica na prevalência das lesões no kitesurf, mas tenho observado alta incidência de epicondilites (inflamação no cotovelo) devido ao esforço ao segurar a barra do kite por longo período, entorses de tornozelo e estiramento de musculatura lombar e outras lesões musculares.

3 – Para modalidade de freestyle que requer manobras do ar, saltos e aterrissagens arriscadas, e muitas vezes com impactos, quais partes do corpo estão expostas a lesões? E o que você indica para preveni-las?
Bruno: No caso do freestyle, a maioria das lesões são traumáticas durante as aterrissagens, como entorses de tornozelo e joelho, associado a lesões ligamentares e também lesões capsuloligamentares e labrais do ombro devido a grande demanda dessa articulação nas manobras desconectadas. O uso da prancha com bota ajuda a estabilizar o tornozelo; o fortalecimento do membro inferior é muito importante para prevenir lesões como tendinites e sobrecarga femoropatelar. Em relação ao ombro, deve-se focar no fortalecimento do manguito rotador e alongamento. Respeitar seu limite é fundamental e ter paciência na evolução; o esporte radical não é loucura, é muito treino e dedicação para realizar tais manobras, por isso “não dê um passo maior que a perna” para não sofrer uma lesão que irá lhe tirar do esporte por bastante tempo.

4 – Uso de botas ao invés de alças nas pranchas de Freestyle e Bigair dão mais segurança ao velejador. O corpo absorve melhor o impacto nos saltos com o uso de botas? O risco de uma fratura ao aterrissar é minimizado?
Bruno: Como falei anteriormente, o uso de botas reduz muito o risco de lesões no tornozelo e fraturas e ajuda na estabilização e sucesso nas manobras, por isso praticamente todos os atletas as estão utilizando.

5 – É comum encontrar pessoas de todas as idades velejando, mas a maioria reclama de dores na lombar, tornozelos e ombros. Existem precauções para minimizar ou evitar uma lesão?
Bruno: O kitesurf é um esporte para todos, sem restrições, porém cada pessoa tem um condicionamento físico diferente e os exercícios complementares fora d’água ajudam a prevenir lesões e ter uma melhor performance no esporte.

6 – Você como atleta e ortopedista, poderia dar dicas de quais exercícios todo velejador deve fazer para preparar o corpo, afim de evitar lesões?
Bruno: Idealmente o treinamento físico deve ser orientado por um profissional qualificado, porém, se não for possível realizar um acompanhamento sugiro iniciar alguns exercícios em casa que auxiliam no fortalecimento. Como por exemplo, exercícios para o manguito rotador: você deve adquirir um banda elástica, com uma das pontas fixas a nível do ombro você realiza movimentos de rotação interna e externa do ombro, exercícios isométricos tipo prancha frontal e lateral e abdominais para o core, agachamentos dinâmicos e isométricos, como encostar as costas na parede e simular que estar sentado em uma cadeira. Também recomendo treinar no balance board ou slack line para melhor consciência corporal e equilíbrio.

7 – Fadiga muscular e ácido lático tornam-se comuns aos praticantes. O que fazer para minimizar?
Bruno: A fadiga muscular que está associada ao acúmulo de ácido lático com aquela sensação de queimação ocorre principalmente na musculatura extensora da coxa (quadríceps), os exercícios de agachamento dinâmicos e isométricos melhoram a capacidade e condicionamento muscular, outros esportes também auxiliam como bicicleta e corrida. Particularmente, hoje não sinto tanto esta fadiga por treinar bastante agachamentos e o próprio kite, no começo sentia bastante fadiga nessa musculatura, mas quanto mais se treina, maior será o limiar com o passar do tempo.

8 – É correto alongar antes e depois de velejar?
Bruno: Sim, alguns trabalhos tem sugerido alongar com o corpo já previamente aquecido para evitar lesões tipo estiramento, porém recomendo que o alongamento antes do velejo seja mais leve, após pode-se focar em um alongamento mais intenso.

9 – Quem veleja por horas, seja num downwind, ondas ou apenas brincando, é comum ouvir a frase: “tomo 2 dorflex e pronto, fico novo”. O que os atletas devem fazer para uma rápida recuperação?
Bruno: É muito comum o uso indiscriminado de antiinflamatórios e relaxantes musculares após esforço muscular intenso, porém o que os estudos tem evidenciado é que a inflamação (benéfica) que ocorre após microlesões musculares no exercício são importantes para sinalização celular e estímulo para recrutar novas células e gerar um reparo muscular adequado, sem falar nos efeitos colaterais no uso contínuo de tais medicações. O grande problema que tem vários velejadores de “fim de semana” e não estão habituados a um esforço que foge do que estão acostumados. Portanto, recomendo um descanso adequado após o esporte, alongamento e prevenção de tais dores ( dor muscular tardia) com um trabalho de condicionamento prévio.

10 – Aos praticantes de hydrofoil, onde a velocidade é alta, acima de 50km/h, a concentração ao velejar é total. No entanto, requer preparar o corpo e a mente para assimilar a velocidade, afinal as pernas precisam estabilizar e sustentar a prancha. Quais cuidados o velejador deve ter com o corpo para velejar de hydrofoil?
Bruno:  Em específico no hydrofoil, a propriocepção, equilíbrio e resistência muscular devem ser o foco principal, exercícios que ajudam bastante são o balance board (prancha de equilíbrio) e o slack line, fora os demais exercícios que já mencionei. O treino que recomendo para aumentar o top speed é tentar acelerar progressivamente no través, isso ajuda a dominar e ter confiança na prancha para o contravento e popa.

Sobre o Bruno: Bruno Lobo, tem 25 anos, natural de São Luís-MA, médico, especializando em ortopedia e traumatologia, apaixonado por esportes, kitesurfista desde 2009 e multiatleta, atual tricampeão brasileiro e Campeão sulamericano de hydrofoil, em preparação para os jogos Panamericanos em Lima- Peru. Divide sua vida entre a medicina e o esporte !!!

Muito obrigado Bruno pelas excelentes dicas e conselhos. Agora velejadores, cabe a cada um absorver o que o Bruno nos ensinou e aplicar, afinal o melhor do kitesurf é poder velejar com os amigos, com a família, curtir tudo de bom que o esporte nos beneficia.

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